domingo, 11 de dezembro de 2011
Hipoglicemia e batom
O celular ficava em cima da mesa de centro, do lado do cinzeiro porta-chaves. A intenção era ser lembrado na hora de sair... Sim, isso se fazia necessário atualmente. O pequeno retângulo envidraçado estava silencioso como todo o resto do prédio. Era um domingo quente, meio desagradável, daqueles em que um ar úmido semelhante à vapor paira no ar durante o dia todo, se transformando em uma noite de céu cinza e nuvens finas no horizonte, aninhadas de maneira a ameça-lo com uma chuva caso ouse enfrentar uma noite de diversão. No estacionamento embaixo, brincava uma menina magrela, cinco para seis anos, cabelo encarapinhado e já solto em uma das laterais do pitote feito com carinho pela mãe, silenciosa sentinela da diversão infantil. Era um ou outro gritinho, e mais nada. E a mãe ali, silenciosa. Um copo ou outro lanche qualquer na mão. E o celular silencioso. E o computador silencioso.
Foi ao banheiro, voltou. Tentou prestar atenção na TV... Alguma coisa sobre economia, agronomia, gastronomia... Quem se importava? Só o silencio importava. Um silêncio surdo e imponente.
Sentiu o rosto queimar... Sentiu raiva e vergonha. Fora enganado? Sim, berrava o seu fígado, fatigado e vazio. Ela parecia sincera. Não sempre, às vezes. Poucas. Os olhos eram grandes e lívidos, e Deus sabe que olhos assim não mentem. A boca, fétido esgoto da alma sim, despeja mentira e falsidade por toda a parte, a todo minuto... Hipocrisia e demagogia escorrem em um caldo grosso e nauseabundo dessa fonte infinita de sofrimento. Cala-te, boca! Bocas mentirosas selam contratos em vão, criam e matam deuses e amores. Bocas irresponsáveis prometem, sem ter intenção de cumprir. Bocas, línguas e dentes, em um conluio oral de farsa, dor e sofrimento alheio...
Olhou de novo pela janela. Acho que a mãe não tinha nada na mão, afinal.
Mas os olhos, não. São os redentores da face, os espelhos da alma, nossos olhos. Transparentes, claros, brilhantes, de cores e tonalidades tão diversas... E de desenhos únicos. Sim, na íris estava a prova cabal e definitiva da supra-confiança ocular: A identidade única. Nenhuma imitação, nenhuma farsa. Só verdade. E era verdade que ele via nas pupilas, desde quando as viu, pela primeira vez, congeladas em pixels frios.
Esfregou as mãos, em um movimento sem sentido, automático e inútil. Saliva e raiva. Foi até o quarto... A cama jazia desarrumada. Olhou de soslaio entre a pequena confluência que existia entre as portas. Em um angulo perfeito, viu a marca vermelha no espelho. Rosa? Aproximou-se, devagar, como se não quisesse assustar a impressão labial, que correria como um inseto assustado para não ser capturado. Um odor tomou seus sentidos na suite, com notas aromáticas de álcool de lima, sabonete líquido de acaí e bílis. A marca estava perfeita, como no momento da sua impressão. Sentiu uma repentina fraqueza, uma letargia desagradável. Não quis se deitar. Voltou para a sala. Nada, silêncio.
Mensagem! Mensagem! Sua operadora, alguma coisa, etc etc. Jogou o pobre aparelho contra o sofá, mais por desforra do que por raiva. Abriu-se em dois.
Não podia entender, e não tinha certeza se queria. Já era tempo de ter acertado, ou não? O que havia de errado afinal? Um gole amargo veio até a sua garganta. Há muito tempo tentava acertar, mas isso não era pra ele.Sofrimento, solidão e amargura, sim. Alegria, companheirismo e carinho, nunca. Teve um ímpeto, e colocou desajeitado a tampa traseira do pequeno telefone móvel, enquanto discava um número... Deteve-se ainda no prefixo. O que estava fazendo? Fraco, perdedor, burro! Lambe-botas, borra-botas... Mongolóide.
O que acontecera com a garotinha, no estacionamento... Sua irmãzinha dançava com ela, imitando seus passos e suas roupas...
Pensou em dirigir até lá, exigindo explicações, afinal. Que tratamento era esse? Como podia ter agido assim. Agitou-se, as mãos suadas e frias. Na sua cabeça algumas imagens violentas alternavam-se com gritos e um choro feminino de piedade...
Era o suficiente, por um dia. Sentia a necessidade daquilo a muito tempo, e não podia mais aguentar. Antes que se desse conta então, o líquido escorreu preguiçoso por sua boca, em uma orgia de sensações. Saboreava com prazer, como se pudesse tocar com suas papilas gustativas todos componentes... Deteve-se. Continuou. Prazer sublime, com o preço de uma imensa culpa por isso. Quis xingar, mas não saiu nada...
Em pé, ele observava calmo, com um copo cheio na mão, a mãe e a menina no estacionamento. Pareciam mais felizes agora. Ele também. A angústia dera lugar para uma realização terrivelmente mundana.
Olhou para a tela do computador. Mensagens de amigos e amigas pipocavam. Havia uma agenda cheia de números e pessoas que queriam sua companhia, por inteiro. Não a culpou. Tinha seus motivos, seus medos e ele também. Sorriu bobo, sozinho, enquanto digitava uma piadinha digital. Isso já tinha acontecido antes, ia acontecer de novo. Culpou os carboidratos simples do almoço e a falta de responsabilidade da noite de sábado. Era tarde para se arrepender de ambos.
Abriu outro bombom, e se recostou satisfeito no sofá. O calor não era tanto, e o programa na TV não era tão ruim assim.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Caçador de emoções...
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Reacionarismo Nerd
segunda-feira, 25 de abril de 2011
O Bufão
Um dia o menino feio simplesmente se cansa e mata todo mundo em sua antiga escola. Não, isso é para os covardes. Homens que se prezam tem outro caminho a percorrer... O da superação. Queria hoje estar em um subúrbio de São Francisco e encontrar o valentão que tomava o lanche de Steve Jobs. Entrar em seu trailer imundo cheio de restos de comida e dizer: “Ei, valentão. O Nerd chegou lá. E não foi graças a você”.
E não foi mesmo. A visão minimalista que temos do mundo é que ações geram reações. Que pessoas que sofrem danos simplesmente se quebram ou se vingam, mas isso não é verdade. É o que gostariam que fosse verdade. Experimente disparar uma arma contra um bloco de concreto e contra um bloco de argila. O dano momentâneo no concreto certamente será muito menor, mas perene. Enquanto na argila, assim que o projétil trespassá-la, a mesma começará a fundir-se novamente, fechando o furo. Um processo lento, mas que depois de terminado e com um toque de refinamento, será impossível dizer que ali passou uma bala. Flexibilidade, mudança...
O caso é que nossa sociedade tem certa resistência à mudança. Enquanto tudo está nos conformes, nós rimos e aplaudimos, mas quando alguém resolve mudar as regras alguns gritam, outros tremem... Muitos aplaudem. Minha família, que me muniu desde sempre de valores cristãos, me ensinou que a humildade é a maior das virtudes. Oferecer a outra face. Porque senão irão esbofetear-lhe a mesma. E assim eu fazia. E acredito que assim façam todas as pessoas satisfeitas com seu papel e com os rumos que seguem nosso país e nosso mundo. Acordam em suas casas humildes, vão para os seus trabalhos humildes, recebem humildemente seu fardo e seguem a vida sempre esperando a próxima bofetada. Humildade. Alguém aí já parou para pensar que “Humildade” tem o mesmo radical de “Humilhação”? Não é coincidência. Somos educados para sermos humildes, coitados, covardes, imutáveis. Para que políticos, padres, pastores e toda a classe dominante tenham toda liberdade de chutar nossos traseiros e a certeza que de ofereceremos a outra nádega.
Recentemente uma grande amiga me disse que gostaria que eu fosse humilde. Não o sou mais. Ninguém o é. Não de nascença, ao menos. Imputam-nos a imagem de que o humilhar-se é bom e desejado, e o impor-se é reprovável. Claro. Impor é tarefa daqueles que são talhados para tal. “Dotores”. “Adevogados”. “Patrão”. E quando temos um líder político pobre que se impõe, a classe média grita contra o socialismo. Quando temos um pensador agnóstico que se impõe, todo o clero vai à imprensa orar pela sua alma. E quando temos alguém de nosso círculo social que se impõe, invejosos e imperfeitos que somos, clamamos aos quatro ventos que o arrogante impositor seja humilhado. Sim, porque a humilhação é o remédio do arrogante. Humilhar, o verbo-mãe da humildade.
Não. Não elogio. Não concordo. Não corroboro. Não admito! Porque seguir a tendência, a maré dos humildes? Porque curvar-se ao belo e ao típico como todos fazem, quando podemos buscar outra via?
Busco em minha imposição e em minha arrogância o escárnio. O ridículo. Apontar para os Belos e para os Fortes e rir, como se riem dos feios e fracos. Busco zombar do comum, atribuindo-lhe apelidos como fazem com o bizarro. Quero que a classe média que anda de carro financiado me odeie por minha prepotência e me inveje pela minha capacidade de “cagar e andar” para seus carros financiados e suas roupas de semi-grife. Quero que saibam que para mim tudo que almejam em sua pequenez de alma tem o mesmo valor daquilo que o gato, sábio que é, cheira e cobre com terra.
Admiro o belo, mas sei que desde sempre o belo foi motivo de exclusão e poder. Porque o belo se muda e se atualiza. Mas o pensar amigos, esse vive por si. Sem padrões e sem medida. Aquela mente que se expande, cria uma vida que não pode ser medida como bonita ou feia. E por isso é temida. Enquanto o belo é invejado, o inteligente é odiado e temido. Porque é dele o poder. O belo é passageiro e temporal. O inteligente é fixo e perpétuo. Milhares de mentes iluminadas desde o começo dos tempos questionaram-se as mesmas questões, enquanto homens barbados e togados foram substituídos por perucas brancas e ternos de risca.
Rio. Aponto. Ridicularizo. Você, que acredita ser sábio, porque tem aqueles que repetem o que diz. Você que acredita ser belo porque tem aqueles que o elogiam. Você, que acredita ser alguém, porque tem aqueles que o seguem. Você é o retrato de um momento, que logo passará. E quando passar, minhas palavras e minha mente prepotente permaneceram aqui, zombando de você. E de suas presepadas. E de suas estrias. E de sua tristeza. Tristeza essa infundada porque, sempre nos é facultado simplesmente rir, nem que seja de nós mesmos.
Nesse dia, olhe para o seu espelho. Veja o que se tornou. Um empregado. Uma dona de casa. Nesse dia você saberá que o mundo não se importa com quem você é apenas com quem você aparentava ser. Você saberá que o belo não é o igual, é o diferente. Que o que existia de original em você foi morto a muitos anos para que você parecesse humildemente com os outros. Que a sua busca em ser igual teve sucesso, mas que sucesso amargo esse. Você saberá que a história foi e continuará sendo escrita por feios e estranhos prepotentes, que cansados de serem alvos de chacotas, ao invés de agachar-se à beira das estradas implorando piedade e uma migalha de pão, traçam o seu próprio caminho mato adentro. Muitos se perdem, alguns morrem, mas todos triunfam.
Talvez eu não esteja aqui para ver. Talvez a sociedade invejosa já tenha dado cabo de mim, me expulsado de seu seio como se faz a um aluno mal-comportado. Talvez esteja esperando apenas para se achegar maltrapilho e dizer-lhe, empurrando-lhe uma garrafa de bebida barata com um sorriso de zombaria no rosto e dizendo “eu te avisei”. Talvez eu apenas ria, ou me compadeça. Ou te bata na cabeça com um pau.
Lí, escrevi, sofri e sorri. Fiz das tripas coração e mudei o andar da carruagem. O menino mecânico virou professor, virou analista. O menino blogueiro virou escritor. O menino nerd virou um homem, de barba por fazer e muito bem nutrido, obrigado. E o menino humilde e engraçadinho virou um arrogante de senso de humor ácido. Um bufão rebelde, um proscrito piadista de uma sociedade certinha, mesquinha e chata. Um palhaço mal-humorado e grosseiro, cujas piadas não tem mais graça.
Afinal de contas... Agora sou eu quem estou rindo de vocês.
terça-feira, 1 de março de 2011
A ninfeta do orkut - Parte Final
Elizabeth não tinha mais apetite, nem mesmo vontade de sair de casa. Sentia-se culpada, infeliz... Procurava não pensar em sua filha, porque toda vez que a imagem dela vinha à mente a pobre mulher convulsionava em lágrimas. Como uma benção divina como um filho poderia tanta dor, tanto sofrimento... Pensava em como seria se fosse de outra maneira. Um neto, ou uma netinha. Uma criança andando pela casa. Os risos, os brinquedos espalhados. O primeiro sapatinho. Chorou. Não agüentava mais.
- Dona Beth?
Virou o rosto rapidamente. Enxugou os olhos na manga da blusa fina, e empertigou o corpo. Não podia ser vista assim. Ninguém podia saber de nada.
- Pois não, Cícera?
- Seu Otaviano já deve de tá pra chega. A sinhora qué que eu vá no mercado?
- Não, não se preocupe Cícera. Eu vou ter de ir até a farmácia mesmo... Não se preocupe. Do que estamos precisando?
Dona Beth, era como ela era conhecida na cidade. Dona Beth, a esposa do Senhor Otaviano. O Vereador mais votado. O homem forte. O “Coroné” Otaviano, diziam os mais velhos. Ela sabia de tudo o mais que diziam de seu marido. E hoje já sabia que a maioria era verdade... Pior que isso. Alguns boatos eram menos cruéis do que a verdade. Elizabeth tinha vivido a vida toda escrava de um monstro, em troca de uma vida confortável e exuberante. Há muito tinha perdido todo o seu amor próprio. Quantas vezes ela não foi obrigada a se deitar do lado do seu marido ainda com o cheiro de prostitutas baratas... Sentir o cheiro azedo daquele homem grosseiro, ignorante... Mas só uma vez levantou a voz para o seu marido. Ficou semanas trancada em sua casa, coberta de hematomas. Ela sabia do que ele era capaz, e isso só aumentava sua angustia...
Andando rápido pela calçada, com duas sacolas de compras, Elizabet quase se esquecera da farmácia. O Farmacêutico, um bom amigo de muitos anos era seu médico de cabeceira, talvez uma das únicas pessoas na cidade que conhecia um pouco de seu calvário particular. Entrou apressada na antiga farmácia, dessas que tem um balcão de vidro e uma grande balança de metal. Coisas de cidade pequena.
- Bom dia, seu Anísio!
- Bom dia, Dona Beth... Como é que vai a senhora?
- Tamos indo, seu Anísio...
- A senhora viu o noticiário hoje?
- Não, seu Anísio... Acho que faz dias que não ligo a TV...
- Essa cidade tá ficando perigosa, Dona Beth. Eu vivo dizendo isso. Lembra que ainda mês passado tentaram me roubar aqui? É esses muleques drogado, Dona Beth, só pode ser... Olha, ainda agorinha tava anunciando na TV...
O Farmacêutico ligou a pequena TV no suporte de canto, do lado de uma imagem pequena de Nossa Senhora e uma vela semi-queimada.
(...) o corpo encontrado hoje de manhã no canavial próximo à Rodovia Distrital aparenta ser de homem de cerca de trinta anos. Um carro foi encontrado abandonado à cerca quinhentos metros do local onde o homem foi amarrado e espancado. Aparentemente, os bandidos roubaram algum dinheiro e um aparelho de som. O proprietário do veículo foi identificado como José Otávio de Lima, que está desaparecido desde a manhã de ontem. A família foi procurada e...
Click.
Seu Anísio teria trabalho pelo resto da manhã. Dona Beth estava desmaiada no chão da farmácia.
...
A única coisa que a incomodava mais que a barriga era a incontinência urinária. Não se importaria de ir ao banheiro a cada quinze minutos, se não fosse aquele banheiro nojento, que todos os peões da fazenda usavam. O chão era sempre molhado e grudento, e o cheiro de urina era insuportável. Incontáveis vezes ela vomitara ao abrir a porta, não suportando o azedo misturado com o cheiro forte de fezes. Azulejos quebrados, uma caixinha de descarga torta... Um espelho quebrado. Esse era o seu cenário boa parte de seu dia. Não tinha amigas, nem mãe. Seu quarto rosa, suas roupas bonitas... Seu traje agora eram vestidos baratos, comprados pelo capataz na única loja do vilarejo, e chinelos, que se enterravam em seus pés inchados de menina. Seu cabelo irretocável fora substituído por um cacheado seco, armado, que vivia preso. Nas pontas restava o único resquício de seus dias de patricinha da cidade. O loiro de suas madeixas avançava para longe do repartido de seu cabelo, dando lugar ao castanho-fosco, herdado de seu pai, aquele maldito. Chorava calada a noite toda, sentia dores... Frio, medo. Sua mãe estava proibida de vê-la, depois que seu pai descobriu que ela trazia o seu celular escondido na bolsa. Mas ela também não queria ver ninguém. Tinha perdido o prazer que sentia na vida. Seu filho ia ser arrancado dela em poucos dias, e levado para longe. Ela nunca mais veria seu rostinho, nunca mais sentiria sua respiração... Não saberia seu nome.
Chorou. Baixo, abafado. Chorou e chorou. Tudo que restava do único homem que a conheceu como mulher palpitava agora no seu colo... Mas tudo estava prestes a acabar. Pensou em suicídio, em fazer coisas... Com o bebê. Às vezes acordava a noite de um pesadelo e ficava se imaginando enfiando objetos de metal no seu ventre. E na sua mente o sangue jorrava, e ela estava de novo linda, magra e feliz... E passeava de caminhonete com o seu namorado mais velho na cidade grande. Ele a amava, ela o amava... E o sangue jorrava, e ela continuava ali, deitada, gorda e cheia de erupções na pele. Inchada, suja, cheirando à urina...
Dor. De novo. Lancinante no seu ventre. Ela urrou, e a cozinheira veio correndo.
- De novo, sinhazinha?
- Por Deus... Naná... uunngg....Por favor... Liga pra alguém...
Uma poça de líquido amniótico se formava embaixo do tecido vulgar do seu vestido de grávida.
Cidade Grande. Cinco horas depois.
- Senhora Elizabeth?
- Sim! Sou eu, Doutor!
- A senhora pode me acompanhar?
O hospital era novo, e bem equipado, com aquele cheiro típico que mistura éter com álcool etílico. O médico, apesar de aparentemente jovem falava com firmeza e segurança. Mas ela não ouvia mais nada Seu neto estava quase morto. Sua filha, reduzida a um trapo de gente. A loucura do seu marido tinha feito mais vítimas do que ela podia suportar. Aquilo não podia continuar... Era sua culpa. Tudo. A imagem daquele jovem morto... Não tinha dúvida que os carniceiros que Otaviano pagava fariam algo como aquilo... Deus. Ela tinha permitido que tudo acontecesse. Era sua culpa...
- (...)até em inseminação artificial ou... A senhora está me ouvindo?
- Perdão, Doutor... Perdoe-me, mas está sendo muito difícil... Imagine pelo que estou passando...
- Eu compreendo, mas temo que a guarda de sua filha seja retirada de vocês...
- Como disse? Oh, meu Deus...
- Minha senhora, essa criança foi mantida grávida em um local em situação deplorável, sem acesso aos cuidados mínimos de saúde e higiene que uma mulher nesse estado necessita, imagine então uma... Criança. O motorista da ambulância nos disse que havia até fezes no local onde a menina dormia. Hoje enquanto operávamos sua filha o seu esposo tentou invadir a sala, alegando que a levaria para outra cidade... Um absurdo. Foram necessários quatro seguranças para contê-lo...
A mulher cobriu o rosto com as mãos... Tirar a sua filha, sua única alegria... Pelo menos ela estaria longe das garras daquele verme, aquele desgraçado...
- Minha senhora, eu entendo o seu sofrimento.... Mas tem ainda uma coisa muito importante que desejo saber da senhora...
Ela sentia um misto de alívio e tristeza profunda. Levantou o rosto marcado, brilhante de lágrimas... Seu lenço de tecido fino não era suficiente para mantê-lo seco.
- Pois não, Doutor?
- A pergunta pode soar invasiva, mas entenda que tem muita importância do ponto de vista clínico. Quem é o pai do seu neto?
A imagem do homem espancado e amarrado na árvore veio à sua mente. Sentiu um enjôo. Segurou... A voz embargada...
- É... Eu não o conheci bem. Era uma jovem que ela... Bem, ela se envolveu com ele pouco tempo atrás, não sabemos muito sobre ele...
- Entendo...
- Porque, Doutor?
- A sua filha, a Maria... A senhora saberia me dizer se ela foi submetida a algum processo de gravidez artificial nos últimos meses?
- Gravidez? Artificial? O senhor diz como...
- Sim. Inseminação.
- Perdão Doutor, imagine... Minha filha mal tinha idade para ter um filho, imagine...
- Minha senhora, embora eu acredite que esse não seja um caso isolado na medicina, é algo particularmente muito difícil de ocorrer. Acredito que exista uma possibilidade mínima disso acontecer hoje em dia, pois em casos extremos de fertilidade, o líquido seminal pode escorrer até a cavidade do útero... Se as condições forem extremamente favoráveis, é possível a fertilização do óvulo. Mas dada a idade de sua filha, eu sinceramente acho um caso extremamente raro e...
Elizabeth estremeceu.
- Doutor, eu não compreendo... O que está tentando dizer?
- Minha senhora... Uma das complicações do parto de sua filha se deu pelo fato de que o seu hímen nunca antes fora rompido... Isso complicou a dilatação, e se não fosse nossa equipe agir a tempo a criança provavelmente não...
- Doutor, por Deus... O que o senhor quer dizer?
- Minha senhora... Sua filha Maria nunca foi penetrada... Por um homem, entende? Fisicamente falando, sua filha Maria ainda é virgem.
Esse conto acaba aqui... Por enquanto. Para ler desde o começo, clique aqui (parte 1), aqui (parte 2), aqui (parte 3), aqui (parte 4) e aqui também (parte 5).
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
A ninfeta do orkut - Parte V
A frente da casa lembrava um pouco aquelas casas cenográficas de novelas com temas interioranos. Com uma grade baixa ladeando todo o seu perímetro, e um jardim malcuidado que avançava uns vinte metros pelo menos rumo a entrada, cortada por uma trilha de pedras hexagonais que subia do portão até na porta das garagens. Um chafariz abandonado de pedras limosas deixava transparecer um ar de tristeza, quase de lar desfeito. Embora estivesse atento a todos esses detalhes, o que chamava mais atenção de Zé Otávio era a praça defronte a casa. Do outro lado desta mesma praça, era onde ele tinha encontrado Mari pela primeira vez, alguns meses atrás. Ela havia saído de casa, atravessado a rua e encontrado um desconhecido praticamente em frente sua casa. Estaria ele sendo observado aquele dia?
Nesse momento, um som agudo repentino interrompeu seus pensamentos. Zé Otávio levantou a cabeça e pensou e olhou para aquela casa desconhecida. Fez uma prece em voz baixa para algum mártir de sua devoção, e entrou.
- Bom dia, Senhora – Disse Zé Otávio virando-se depressa quando a porta abriu-se repentinamente atrás de si. Assustou com a imagem de uma mulher pouco mais velha que ele, talvez nem tão mais velha, mais certamente mais sofrida. Tinha os olhos vermelhos do choro e arroxeados da falta de sono. Apesar disso, era uma mulher bonita e bem vestida. A beleza de sua filha certamente não era fortuita.
- Bom dia... – Disse ela, desconfiada – Você por acaso é o José Otávio?
- Sim, senhora...
- Ora, me desculpe... Eu esperava alguém mais...
- Jovem?
- Sim. Olha é melhor você entrar...
A sala da casa tinha uma decoração simples e de bom gosto. Na parede, uma foto grande da família. O pai de Mari era um sujeito de olhar terrível, lábios grossos e cenho franzido, com cabelos negros e grossos... Ruins. Não era de se estranhar o vício de sua filha em chapas de alisar o cabelo...
- Fique a vontade, José Otávio... Desculpe minha reação na porta, mas você deve entender certamente que os namorados da Mari sempre foram garotos praticamente... Eu não esperava alguém... Bem... Imagino que você tenha mais de trinta anos.
Apesar de não contar ainda com essa idade, Zé Otávio sentia uma ponta de orgulho quando o julgavam mais velho. Vestia-se como um homem, e não mais como um rapaz, e a barba e as mãos grossas contribuíam para essa imagem.
- Sim, na verdade tenho vinte nove... Mas senhora também é muito jovem...
- Senhora não, por favor... Pode me tratar por Elizabeth. Beth.
- Pois não!
A mãe de Mari (Beth!) serviu o café na xícara em cima da mesa de centro. Não perguntou se Zé queria ou se tomava com adoçante. Costume de gente simples, ele observou. Na casa de sua avó o café era sérvio pra todos, já adoçado, ainda na mesa do jantar. Ninguém questionava. Nem deveria. Zé Otávio gostava do que emanava daquela mulher... Talvez fosse esse pedacinho de menina simples do interior que tinha feito ele se encantar por sua filha...
- José... Eu imagino que saiba por que eu o chamei aqui... Ou não?
- Imagino, embora não tenha certeza...
A mulher respirou fundo, como se fosse a notícia mais importante de sua vida.
- Minha filha, Maria... Tem se comportado estranha nos últimos meses. Por duas ou três vezes eu a peguei chorando em seu quarto... E... Bem, eu sou uma mulher experiente... Percebi algumas mudanças em seu corpo...
- Ela está grávida.
- Sim... Ela lhe disse?
- Beth... Faz muito tempo que não consigo contato com a Mari... Com a Maria. Ela me ligou um dia na empresa e disse somente isso, que estava grávida, mas depois disso seu telefone está sempre desligado... Fiquei muito preocupado, mas até hoje não sabia quase nada sobre ela exceto seu número de telefone e a escola onde estudava... Quando me ligou hoje, eu estava vindo para cá, tentar levantar alguma informação...
A mulher concordava com a cabeça, e o seu olhar não era de uma avó preocupada, mas de uma mãe com medo.
Zé continuou.
- Eu conheço a Maria há pouco tempo e, bem... Passamos uma noite juntos, embora eu não me lembre exatamente de tudo o que tenha acontecido. Não me lembro de ter me protegido, mas como ela sempre me disse que tomava remédios...
- Ela disse?
- Sim.
A mulher suspirou.
- José... Apesar do que possa parecer, para nós... Principalmente para meu marido, a Maria ainda é uma criança. Eu... Eu sabia que ela saia com rapazes, mas o pai dela não pode nem imaginar uma coisa dessas... Ele não deixa nem eu levá-la ao médico, sabe? É um homem muito... Simples, e para ele a nossa filha ainda deveria brincar de bonecas, e não ter namorados...
Ela deu uma respiração profunda... Deu um gole no café e continuou.
- Ela não me disse, mas eu sei que ela está grávida... De uns três meses pelo menos, não? Mas... Eu tenho pavor de pensar no que pode acontecer se... Se o meu marido imaginar que...
Zé Otávio percebeu que a mulher fazia força para não chorar... As mãos ornadas tremiam tanto que ela depositou a xícara na mesa. Ela respirou fundo e continuou.
- A Maria está em nosso rancho, na beira do rio, com o pai dela. Ele comentou comigo que ela está ganhando peso, mas eu disse que devia ser pelas comidas fortes do sítio e porque está sem ir à ginástica há mais de um mês... Ele não duvidou, mas... José, eu tenho muito medo do que possa acontecer caso ele venha a desconfiar, ou descobrir... Ai, meu Deus...
Sem perceber, a mulher se desfez em lágrimas. Um arrepio gelado correu o antebraço de Zé Otávio até a sua nuca... Que tipo de homem amedrontaria tanto uma mãe a ponto de ela temer pela sua filha?
- José, eu o chamei aqui para pedir que desapareça da sua cidade por um tempo.
- Como?
- O meu marido, José... É um homem muito conservador, perigoso... Temo que ele possa fazer algo contra você caso descubra... Temo também pelo que ele possa fazer por ela, no entanto... Acredito que você corre sérios riscos ficando por aqui. Vou voltar hoje para o rancho e convencer a Maria a dizer pra ele que foi abusada por um desconhecido e...
- Não, que absurdo... O que a senhora está pedindo que eu faça não é razoável!
Zé Otávio estava em pé agora... Uma veia saltava na sua testa e ele começara a suar... Imputar um falso estupro? Que absurdo... E se descobrissem a verdade... E se tirassem...
- Não... De maneira nenhuma! Não posso fazer isso! Isso é loucura!
- José... Por favor, seja razoável, você não sabe...
- Não, não... Imagine... Eu seria procurado por estupro... Imagine... Como você pode...
A mulher agora soluçava. Era um pranto inconsolável. Zé Otávio não sabia o que fazer. Pegou suas chaves de cima da mesa e a mãe de Mari segurou o seu punho.
- Por favor, José... Eu imploro!
- Minha senhora... Não se preocupe, não sou um garoto. Vou conversar com o seu marido como dois homens adultos, e resolver essa situação. Eu assumirei o filho, é claro... E se for o caso... Eu assumirei a sua filha também.
A mulher estava inconsolável... Não dizia mais nada. Apenas chorava baixo e sincero...
...
Na rodovia, Zé Otávio dirigia com a cabeça a mil. Precisava descobrir como falar com o pai da garota, mas pensou também que fosse bom encontrá-lo em um lugar público. Zé era um cara rijo, musculoso, embora fosse absolutamente avesso a brigas. Mas o homem parecia enorme nas fotos, e pelo que disse sua esposa certamente era violento. Zé tinha medo que o tal armasse algo para ele... Pensou que o melhor seria encontrá-lo em sua cidade...
O velocímetro marcava mais de cento e vinte kilometros horários, quando passou a baixada do rio. No alto, viu duas viaturas de polícia fechando uma das pistas. Desacelerou quase brusco, e viu o policial fazendo sinal que encostasse...
- Que ótimo! – Pensou.
- Bom dia, senhor. Documentos pessoais e do veículo, por favor.
Zé Otávio estranhou o fato de que os policiais eram militares comuns, e não rodoviários, mas imaginou que estivessem procurando algum foragido. E estavam mesmo.
- Bom dia, policial. Aqui estão os documentos do carro... E os meus...
Nesse momento, um policial já havia sinalizado com a cabeça para o outro. Mais dois desceram da viatura e ficaram parados do lado do carro. Zé percebeu que tinha algo errado.
- Senhor José Otávio de Lima?
- Sim?
- Temos umas verificações para fazer. Por favor, saia do carro e encoste as mãos no veículo. O senhor vai ter de nos acompanhar até o distrito policial.
- O que? Mas como assim? Acompanhar por quê?
- Temos uma denúncia de estupro, senhor José. Por favor, saia do carro. Agora.
Esta é a quinta parte deste conto interminável. Para conhecer esse calvários desde o início, clique aqui (parte 1), aqui (parte 2), aqui (parte 3) e aqui (parte 4).
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
A ninfeta do orkut - Parte IV
- Zé? Você tá bem, cara?
Não, ele não estava nada bem. A voz do seu funcionário parecia vir de um kilometro de distância, ecoando grave e meio incerta nos recônditos de sua cabeça. Zé estava sentado, com as mãos no rosto e os cotovelos apoiados em uma pilha de papéis e notas fiscais que exigiriam sua atenção imediata qualquer outro dia... Mas não hoje. O infeliz Zé Otávio tinha acabado de receber uma notícia que ia mudar sua vida para sempre, e ele não sabia dizer se estava mais chocado, exasperado, triste ou feliz com tal notícia. As possibilidades faziam sua mente divagar. Estaria ela blefando? Seria um golpe, um teste... Mas por quê? Não fazia sentido. E a voz dela, trêmula... Não podia ser mentira. Passado tanto tempo... Um mês? Ou mais? Era tempo suficiente para que não fosse apenas um ciclo desregulado de adolescente. A família dela então... Como reagiria? Não que ele tivesse medo, pelo contrário. Era um cara bem resolvido financeiramente, e podia assumir a criança, e até um relacionamento mais sério com a Mari, se fosse o caso. Mas por que ela estava tão assustada? E não tinha mais procurado ele... Eram tantas perguntas...
- Zé?
- Oi, Wilson... Desculpa, tava meio aéreo aqui... Diga, o que você precisa?
- O vendedor da 3M tai... Posso mandar ele entrar?
- Claro... Só um minuto.
Zé pegou o seu celular. Rediscou rapidamente para o número da Mari, e ouviu a conhecida mensagem da operadora de número não disponível.
- Pode mandar ele entrar, Wilson.
...
- Com quem você tava falando, Maria?
Parado na porta, o pai de Mari parecia muito maior do que realmente era. Ele era um nordestino encorpado, nem alto e nem baixo, com seus cinqüenta e poucos anos. Apesar de agora envergar o ar aprumado de político, tinha nas mãos e na pele as marcas de uma vida bruta. Nascido em uma fazenda da região, filho de colonos, se tornou capataz de seu patrão ainda muito novo, graças a sua compleição física avantajada e a sua ausência de escrúpulos. À mando de seu ex-patrão, já tinha cometido crimes e imoralidades, inclusive a maior delas, quando o velho rico morreu, de maneira estranha. Os dois saíram para realizar uma cobrança e só capataz voltou, dizendo que o velho fazendeiro havia se acidentado. Viúva e sem filhos, a esposa do velho deixou todas suas posses sob domínio do capataz, até morrer, meses depois de uma embolia alimentar. Aos trinta anos, o capataz pobre e sem estudos havia se tornado dono de uma das maiores fazendas da região.
Astuto e intimidador, não tardou para que se tornasse escolha óbvia como novo coronel da cidadezinha de 20 mil habitantes. Em pouco tempo seu rosto queimado pelo sol ganhava ares politizados nos cartazes mal-colados que pendiam em todos os muros da cidade. Um rosto ameaçador, ostentando um sorriso vazio que o levou a uma votação recorde. O pai de Mari era vereador pelo seu terceiro mandato, presidente da câmara e um homem muito, muito temido.
- Oi pai... Não vi que o senhor estava aqui.
- Eu não tava, acabei de chegar e vi você falando no telefone. Com quem você estava falando, Maria?
- Com a Natália pai... Minha amiga... Ela vai pra Porto Seguro essa semana e...
- Já te disse que não quero mais de conversa com essas fulanas daqui. Você é minha filha e não quero você falada por ficar até tarde nos bailes, com essas perdidas hein? E também não quero você de papo com aquele frozô amigo seu. Onde já se viu... Filha minha não anda com afeminado não. Você me entendeu, Maria?
- Sim, pai. Claro.
- Outra coisa, minha filha. Eu e sua mãe vamos pro rancho amanhã cedo, e quero que você vá junto. Aproveita as férias da escola e ficar um pouco com seus pais...
- Mas pai, eu tinha combinado com as meninas de...
- Sem mais minha filha.
A porta se fechou brusco atrás dela. Sentada na cama, no quarto impecavelmente cor-de-rosa, olhou para o mural com dezenas de fotos de amigas e festas e para o seu guarda roupas abarrotado de roupas de grife...
Chorou. Um misto de raiva e tristeza. Não saiu de se quarto o resto do dia.
...
No apartamento apertado de Zé Otávio, a curiosidade e a tensão da notícia que tinha recebido de Mari já havia se transformado em angústia. Fazia agora dois meses sem nenhuma outra notícia, desde aquela ligação interrompida bruscamente. Zé Otávio andava deprimido, e extremamente preocupado. Com certeza, os pais da garota já haviam descoberto a gravidez, se é que ela estava mesmo grávida... Ela era uma moça esguia, de ventre baixo, não seria possível esconder uma barriga de três meses. No entanto, porque não havia mais entrado em contato? Depois da última ligação, o celular dela nunca mais atendeu, estando sempre desligado. Tinha ido até a escola, quando retornaram as aulas, mas não havia nem sinal dela. Suas páginas na internet estavam desatualizadas, exceto pelos recados das amigas e dos (muitos) amigos, todos perguntando onde ela estava que não dava notícias... Zé sentiu seu estômago embrulhando de novo, e a pele gelada de um calafrio repentino que havia se tornado comum. Não sabia nada sobre aquela menina, a vida dela, quem eram seus pais e como reagiriam a uma notícia dessas. Imagine, em uma cidade pequena como aquela, uma garota de quinze anos grávida de um desconhecido com o dobro de sua idade...
O que iam pensar dela... E dele? Podia estar sendo até acusado de estupro, sem saber... Cada vez que seu celular tocava com um número desconhecido, Zé tinha medo de ouvir um pai furioso, ou um investigador desconfiado do outro lado...
Decidiu então que não podia mais ficar parado, esperando algo acontecer.
- Alô, Wilson?
- Pois não, Zé... O que que manda?
- Wilson, vou agora de manhã resolver um problema na cidade vizinha... Você segura as pontas por aí?
- Opa chefe, pode ficar tranqüilo. Boa viagem.
- Obrigado, Wilson. Até mais tarde.
Vinte minutos depois, Zé já estava na rodovia, dirigindo acima do limite de velocidade. Enquanto dirigia, pensava em como poderia começar... Pensou em ir até na escola, pedir para falar com uma professora... Se explicasse a situação, e demonstrasse boa vontade, talvez conseguisse ajuda... Mas não estaria se expondo demais? Pensou também em rodar pelo bairro de classe alta da cidade, e procurar alguma casa com as características das fotos do álbum da garota... Era uma opção mais remota, pois não podia simplesmente apertar a campainha e dizer “Olá, creio que sua filha está grávida de mim... Posso entrar?”. Mas de uma coisa ele tinha certeza... Já era hora de resolver essa situação de uma vez por todas, de qualquer maneira que fosse possível. Afinal, o que poderia acontecer de tão grave?
Nesse momento, o telefone vibrou em sua perna... Zé Otávio desacelerou devagar, entrou no acostamento e antes mesmo do carro se deter por completo, via o número conhecido no visor.
- Mari?
- Alô? José Otávio?
- Si-sim... Quem está falando?
- José Otávio, por favor, me escute... Aqui quem está falando é a mãe da Maria... Preciso muito falar com você.
